mar 9, 2016
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A mãe morta salvou o filho

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camposdojordaoPedro Paulo filho, advogado de Campos do Jordão e ilustre intelectual da cidade, faleceu no dia 15 de novembro de 2014. No entanto, deixou uma intensa herança literária e escreveu inúmeras histórias sobre a Montanha Magnífica, como ele mesmo gostava de chamar. Entre elas destacamos “A Mãe Morta Salvou o Filho”. Uma história arrepiante relatada pelo respeitado médico dos tuberculosos da colônia japonesa em Campos do Jordão, Dr. Carlos Ryoma, pai de Ryoki Inoue, o escritor que mais publicou livros no mundo. Pouco mais de 1200 livros.

 

O Presente Passado a Limpo
Neste livro o autor reuniu algumas de suas crônicas históricas que escreveu sobre a Estância na imprensa local, ao longo de muitas décadas. As crônicas lembram, em sua maioria, episódios históricos ocorridos no passado na Estância de Campos do Jordão, garimpadas pelo Autor.

 

A MÃE MORTA SALVOU O FILHO

O doutor Carlos Ryoma que foi médico pneumologista em Campos do Jordão nas recuadas décadas de 40 e 50, contou ao seu filho Ryoki Inoue um episódio deveras impressionante.

Depois de longa permanência em nossa cidade, onde trabalhou como tisiologista, o médico acompanhado de sua esposa professora La Salete de Alpoim Inoue, mudou de residência para a cidade de Taubaté.

Numa de suas idas e vindas pela Rodovia Presidente Dutra, dirigindo seu veículo à noite, deparou, na altura do município de Pindamonhangaba, mais ou menos no local onde morreu tragicamente o cantor Francisco Alves, o Rei da Voz, um grave acidente de ônibus do Expresso Brasileiro.

Ônibus tombado no acostamento de um lado e um caminhão de outro. A Polícia Rodoviária sinalizava o local com iluminação de alerta, pedindo aos veículos a redução da velocidade.

Inúmeras ambulâncias alinhavam-se com as viaturas policiais. E um espetáculo dantesco: inúmeros corpos, de passageiros do ônibus, vítimas do desastre, jaziam enfileirados ao longo do acostamento.

O médico Carlos Ryoma Inoue, ao deparar-se com aquele quadro terrível, parou o seu carro, oferecendo à Polícia Rodoviária os seus serviços de profissional da medicina. Um dos guardas rodoviários foi dizendo: “Obrigado, pode tocar em frente que, como o senhor vê, não há ninguém vivo ou ferido entre os passageiros”.

Carlos Ryoma Inoue ligou o seu automóvel e prosseguiu viagem, transtornado com a visão dantesca que tivera, mas ao chegar um quilômetro à frente, através dos faróis do veículo, percebeu que uma mulher, com as vestes ensangüentadas, fazia sinais enérgicos com a mão para que ele parasse o veículo à beira da rodovia.

Extremamente assustado, o médico jordanense reduziu a velocidade e foi parando, quando a mulher aflita e desesperada, aproximou-se da janela do veículo e disse: “Moço, por favor, volte ao local do acidente. Entre os corpos que estão no acostamento há uma criança viva nos braços de sua mãe. Volte, por favor!”

Tornou a insistir: “Volte, por favor!”.Contrariado, o médico re¬tornou ao local do acidente. Estacionou o seu automóvel e, vagarosamente,foi se aproximando do horrível local do acidente, onde jaziam inúmeros corpos inanimados e estendidos.

O dr. Carlos Ryoma lnoue, passo a passo, foi conferindo, um por um, embora na escuridão, os cadáveres, procurando, sobretudo, um corpo de mulher. Aproximou- se dela, ligou a sua lanterna e logo identificou a mulher que, há poucos minutos lhe fizera sinais para que estacionasse. Exclamou: “Meu Deus é a mesma mulher!”.

E junto ao seu corpo, que encostava em outro cadáver, sob os seus braços, havia um bebê também ensangüentado.

Percebendo os sinais vitais na criancinha, rapidamente tomou-a em seus braços, e chamou a Polícia Rodoviária que providenciou os socorros a aquele pobre sobrevivente que passava despercebido por entre os corpos inanimados.

A criança foi salva, graças a mãe morta.

O médico não contou aos policiais rodoviários que fora a própria mãe que o fizera retornar local do acidente. Não fê-lo porque achariam que estava louco ou ficara desnorteado ante a visão terrível da tragédia. Disse apenas que uma força interior muito poderosa, o fizera regressar.

Incrível, mas verdadeiro. A mãe morta salvou o filho.

 

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Contos bem contados
O livro é constituído de uma coletânea de episódios jordanenses históricos e outros sobre advocacia, que narram fatos não ficcionais, mas verdadeiramente ocorridos em Campos do Jordão, São Paulo e no País. O livro contém fotografias de Edmundo Ferreira da Rocha e o prefácio é de autoria do escritor Ryoki Inoue.

 

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