jul 19, 2015
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Brasileiro que viajou o mundo revela porque não volta mais para o Brasil

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Há várias formas de aproveitar o melhor da vida. Para muitos, viajar é a principal delas. A experiência de conhecer lugares e pessoas diferentes, entender as peculiaridades da cultura e o modus vivendi de um povo, provar outros sabores e ainda fazer novos amigos, são objetivos indispensáveis nas muitas aventuras de Michel Zylberberg.

Designer e fotógrafo, aos 35 anos, ele já esteve em vários países e por isso tem história para contar. Por esse motivo, ele criou o blog Rodando pelo Mundo, onde o leitor poderá encontrar informações sobre turismo, por meio de um ponto de vista de quem realmente fez a viagem.

Carioca, mas criado em Itajubá, sul de Minas de Gerais, em sua primeira viagem à Austrália, conheceu a italiana Sara, com quem teve duas filhas e casou-se em Lugano, sul da Suiça.

Conheça um pouco mais sobre o nosso entrevistado a partir de agora:

ÍndiaQuais são as suas especialidades e onde trabalha? 
Troquei de faculdade algumas vezes e acabei me formando em Design de Multimídia no Senac. Sempre trabalhei nessa área, quase sempre em agências de publicidade, mas atualmente trabalho em um jornal aqui na Suíça.

Como foi a sua infância e adolescência?
Livre. Acho que não existe outra palavra para defini-la. Cresci em uma cidadezinha muito pequena no sul de Minas e tive uma infância super tranquila, como deveria ser para todas crianças. Na adolescência rodei outras cidades estudando, fiz intercâmbio nos EUA e comecei a pegar gosto pelas viagens.

Viajar para outros países sempre foi o seu objetivo?
Viajar sim, não necessariamente para o exterior. Desde pequeninho meus pais nos colocavam no carro e viajávamos mais de 3 mil quilômetros de Minas até Fortaleza. Eu adorava aquilo. Mas também sempre senti essa sede de alçar voos mais altos.

EgitoQuanto tempo durou o seu intercâmbio e de que modo essa experiência influenciou na sua vida?
Passei um mês em San Diego estudando em 2001, fiquei na casa de uns russos e foi muito legal. Em 2005, depois de me formar, fui para a Austrália estudar e trabalhar, e aí nunca mais voltei pra casa (para o Brasil).

Qualquer pessoa pode fazer um intercâmbio? Você acredita ser possível, uma família de baixa renda, participar de um programa de estudos no exterior? Qual o melhor caminho você indicaria para quem sonha com uma oportunidade nesse sentido?
Já vi pessoas de todos os níveis sociais conseguirem experiências desse tipo. Estudar é sempre fundamental, mas claro que muitas vezes – e infelizmente – o dinheiro se torna parte importante no processo. Ainda assim muita gente desiste mesmo antes de tentar. As fronteiras se tornam sempre mais relativas e o mundo precisa de bons profissionais. Se você constrói uma base sólida, estuda outros idiomas, a chance será sempre maior. Seja através do esporte, estudo, pesquisa ou até mesmo trabalho manual – quem quer encarar uma experiência assim tem que estar pronto para tudo.

Ilhas MaldivasComo é viver longe da família? Você não sente falta? Com que frequência viaja de volta para o Brasil?
É muito difícil, ainda mais tendo filhos e ninguém da família para dar uma mão. Tem coisas que damos por descontado, mas que deixam uma lacuna gigante. A falta é perene, a saudade muitas vezes dói muito, mas é a nossa natureza seguir em frente. Eu digo sempre que morar fora é como morrer um pouco – a vida segue mesmo que você não esteja presente. Eu costumava ir todos os anos, agora com as crianças vai ficar sempre mais difícil. Mas eles nos visitam e tentamos também ir ao Brasil a cada 2 ou 3 anos.

E os amigos, como é lidar com o tempo e a distância de quem você gosta?
Hoje a tecnologia e redes sociais diminuíram muito essa distância. Muitas vezes falo mais com amigos que moram na mesma cidade do Brasil do que eles entre si. Whatsapp, Facebook, Viber… são inúmeras as opções que diminuem a distância, mas claro que por maior que seja a evolução nesse sentido, nunca irá se comparar à uma cervejinha numa mesa de bar, reunião de família ou um churrasco, coisas assim.

Você é editor do site Rodando Pelo Mundo. Quando foi que surgiu a ideia de escrever e publicar fotografias?
O blog já tem quase 10 anos, foi um processo muito natural e que tentei levar seguindo o meu perfil, de não forçar a barra ou me “prostituir”, apelando na questão de conteúdo e publicidade. O Rodando Pelo Mundo surgiu das minhas experiências e hoje em dia conta com a colaboração de muitos amigos viajantes ou leitores. A tendência é falar mais sobre assuntos que fazem refletir, não é a toa que o slogan é “um blog de viagens que vai um pouco além de roteiros”. O mercado é saturado e cada um precisa achar seu espaço. Não é sempre uma mina de ouro como muitos imaginam, mas quem faz um bom trabalho vai ter sempre espaço. Já a fotografia foi uma consequência do percurso do meu trabalho de designer e também do blog, que despertaram a paixão e a curiosidade pela fotografia. Sou perfeccionista e acabei estudando muito para melhorar tecnicamente e também investi em equipamentos. Hoje falta tempo para me dedicar, mas acho um mundo fantástico e a velha máxima da imagem que vale mais que mil palavras vai ser sempre verdadeira.

Qual foi o país ou a viagem que mais marcou você? E por que?
Não preciso pensar muito para responder. A Austrália é um lugar fantástico e só deixei o país porque foi lá que conheci a minha esposa. Acho que existe um equilíbrio muito bom no que diz respeito à qualidade de vida. Tem segurança, clima, natureza, trabalho, diversão… uma mistura que funciona super bem. Hoje moro na Suíça, um ótimo país, mas a Austrália consegue ser ainda melhor. Uma volta pela Índia também foi uma viagem que me marcou muito.

Suíça

Cite 3 países que você considera os melhores para conhecer. E quais os principais motivos?
Isso é muito relativo. Adorei a Índia, mas muita gente não suportaria a pobreza e algumas características da cultura. Na minha concepção e experiência totalmente pessoal: Austrália, Índia e Indonésia. Também existem lugares super exóticos como a Tailândia, Noruega e as Ilhas Maldivas, por exemplo. O principal motivo que me leva a viajar é conhecer as realidades como elas são. A vida dos locais, a cultura e a rotina nua e crua. Claro que muitos buscam esportes radicais, gastronomia, cultura, meditação, belas paisagens e muitas outras coisas em viagens, mas a minha essência é sempre de viver a vida local e mergulhar em um novo mundo.

Suas viagens, em geral, não seguem exatamente um padrão de pacote turístico, por isso, cada experiência é uma aventura. Nesse sentido, você já passou por alguma situação de apuro?
Exatamente, é como contei na pergunta anterior. Uma vez fui para o Egito e ficamos quase uma semana em um hotel, eu quase fiquei maluco. Tratei logo de encontrar passeios e outras opções, porque ficar fechado ali era impensável. Aventura é uma palavra que provavelmente está escrita no meu DNA, a busca do novo, de sabores, perfumes, sensações… Não me lembro de nenhuma situação de perigo que merece ser citada, porque procuro ler bastante sobre os destinos antes de viajar, e acho que isso ajuda muito a evitar problemas mais sérios. Muitos turistas são imprudentes e acabam se ferindo ou até morrendo por imprudência e ignorância. Informar-me sempre com guias ou com os locais, me preparar bem (fisicamente e com equipamentos – quando necessário) e contar com um pouco de sorte acho que foi a receita que me trouxe até aqui.

Quais os povos que você mais se identificou e por que?
Sou muito aberto e mesmo tendo uma bagagem de preconceitos que querendo ou não vamos preenchendo durante a vida, procuro olhar tudo com o máximo de “pureza”. Os indianos são um povo maravilhoso, amigos, humildes e companheiros. O sorriso é uma linguagem universal, depende muito da gente para que os estrangeiros se abram e se sintam a vontade com a nossa “invasão”. Na Austrália, além dos locais, também trabalhei com pessoas do Paquistão e de Bangladeche, também são pessoas incríveis. Em Bali, na Tailândia e em Cuba também conheci pessoas muito legais. Posso ter a honra de dizer que deixei bons amigos por onde passei, e isto me enche de orgulho. Os europeus são mesmo mais frios, mas também tenho bons amigos por aqui. Em todos os países existem pessoas boas e más, mas o importante é ir construindo “filtros” que ajudam a evitar problemas, golpes e tudo mais.

Suas fotografias são destaques e também referência para muitos viajadores, para você, o que representa fotografar uma paisagem ou mesmo uma pessoa durante o seu percurso?
Antes de mais nada procuro pensar nas minhas fotografias como recordações e registros dos meus passos pelo mundo. Não busco ser uma referência ou destaque. Muita gente vai em workshops em lugares famosos e fazem fotos fantásticas, mas é algo que eu nunca poderia fazer, pois não é a consequência de uma viagem, não é algo natural nesse meu estilo de viajar. Eu vou visitar um lugar, curto o momento e a foto é apenas uma consequência nesse processo. A busca pela evolução técnica é um desafio pessoal, mas é claro que o reconhecimento acaba virando um sinal que algo está no caminho certo. Eu prefiro paisagens, porque respeito muito as pessoas e só fotografo quando elas aceitam. Claro que acabamos “roubando” uma ou outra foto por ser parte de um contexto, mas não poderia jamais usar uma fraqueza de alguém, por exemplo, para me tornar mais conhecido. Respeito quem registra realidades para fins de denúncia, mas já deixei de fotografar muitas pessoas que renderiam belas fotos pelo simples fato de elas não estarem de acordo. Procuro ficar invisível quando estou com a câmera na mão, registrando o mundo em torno com o mínimo de disturbo.

Já recebeu algum prêmio por alguma dessas fotografias? Quais?
Destaques em sites e coisas assim sim, prêmios só simbólicos, nada demais. Não gosto de participar de concursos porque a fotografia é muito subjetiva, o que acaba gerando um descontentamento com muitas das escolhas, que partem de gostos pessoais. Quando é por “curtidas” é ainda pior, porque quase sempre ganha quem tem mais amigos e influência e não quem merece de fato. Na verdade sou bem reservado com minhas fotos, muitas delas acabo não divulgando por serem especiais para mim. No máximo mostro pra amigos e família. Sou assim com as minhas poesias também, e a fotografia não deixa de ser um poema em cores – ou preto e branco. Muita gente se considera fotógrafo(a) hoje em dia, mas é uma profissão como qualquer outra, que exige muito estudo, prática, conhecimento técnico e investimento em equipamentos e acessórios. Eu não sou fotógrafo, e sim um apaixonado que tem o hobby da fotografia. Por isto sempre acompanho bons fotógrafos buscando evolução e inspiração. Quem sabe um dia eu possa afirmar que serei um fotógrafo, mas até lá o caminho ainda é bem longo e tortuoso.

Você poderia elencar em fotografia, cada um dos países que você já visitou?
Eu comecei a me dedicar à fotografia com mais intensidade depois da viagem para o paraíso das Ilhas Maldivas, foi lá que eu percebi que não bastava apertar o botão para registrar as belezas incríveis que tinha ao meu redor. A partir dessa viagem, em 2010, acho que poderia sim fazer um elenco interessante das minhas andanças. Mas em 2011 nasceu a minha primeira filha e em 2014 a segunda, então as viagens diminuíram consideravelmente de lá pra cá. Boa parte dos registros foram de lugares aqui perto de casa, o que não deixa de ser uma viagem, pois ainda me sinto turista mesmo depois de tantos anos na Suíça.

Além de viajar e fotografar, o que mais você gosta de fazer? Pratica algum esporte? Faz meditação? É religioso?
Falar de religião é bem complicado hoje em dia. Prefiro partir do pressuposto que nunca gostei de rótulos. Sou filho de pai judeu e mãe católica, e eles me deram a liberdade de escolher. Não sou ateu, judeu nem católico, então meu Deus não é algo bem definido. Já fiz yoga e meditação, acompanhei a doutrina espirita, mas foram fases que não sei se vão voltar. Procuro assaborar um pouco de tudo, provando um pouco de cada religião e culto. Acredito que qualquer coisa que seja radical e contra outras religiões vá completamente contra a essência do que somos na verdade, ou seja, um só. Somos seres humanos e as “guerras santas” sempre serão o maior paradoxo que vejo na nossa sociedade. Religiões deveriam alimentar a paz e a união e não o ódio e a intolerância. Quanto aos esportes, eu também gosto de provar de tudo. Adoro surf, já tentei algumas vezes, mas não levo muito jeito. Cresci praticando muitos esportes e ainda continuo assim, praticando o que me dá mais prazer e satisfação.

Você tem acompanhado as notícias no Brasil? Acha que muitos brasileiros estão deixando o país por causa da crise? Ou acha que são apenas escândalos políticos? Isso o incomoda?
Tenho sim, sempre que posso. O câncer da corrupção infelizmente generalizou e hoje está em todas as classes e atividades. Não podemos culpar apenas a política, mas dou a esta boa parte da responsabilidade por ter falido uma instituição fundamental como a educação. Hoje boa parte do novo povo vive na ignorância e de “esmolas”. Deram o peixe, mas não ensinaram a pescar. A violência foi uma consequência do sucateamento de todas aquelas que deveriam ser necessidades básicas. Posso dizer que morei no paraíso durante a minha infância. A liberdade que citei na quarta pergunta hoje não existe mais. São todos reféns de uma guerra civil implacável, onde o povo é inimigo do povo e os senhores da guerra roubam tudo que podem, mas nunca sabem de nada. Sinceramente não tenho mais esperanças que algo poderá mudar, só com uma grande revolução encabeçadas por pessoas do bem que tragam uma nova cultura de divisão e não de egoísmo, consumismo e ganância.

Pensa em voltar para o Brasil?
Por enquanto só de férias, e ainda assim com receio de algo de ruim acontecer com a minha família. É um medo cruel, com o qual os brasileiros aprenderam a conviver, mas eu não. Não existe mais o respeito com o próximo, com a vida, com a família. Mata-se por matar, esfaqueiam por esfaquear, como se as vítimas fossem os culpados e os assassinos seguros da impunidade. Acho que a palavra intolerância pode definir bem a nossa realidade atual, e onde existe intolerância existe ódio, e este leva à guerra.O Brasil poderia ter se tornado o melhor país do mundo, mas o futuro é sempre mais sombrio. Pensar em voltar e ajudar entrando na política, por exemplo, virou algo surreal. Você acaba sendo engolido pelo implacável e faminto monstro da corrupção.

Quais os lugares que você ainda pretende conhecer nesta vida?
Até que as minhas filhas cresçam e fiquem independentes, vou me adaptar aos destinos que tenham mais o perfil delas. Mas também vou procurar passar para elas um pouco dessa minha paixão por aventura, pelo contato com a natureza. Com crianças um acampamento no quintal vira uma aventura inesquecível… uma noite vendo as estrelas, animais em liberdade, rios, montanhas, mares e lagos… muitas pessoas viajam milhares de quilômetros e voltam para casa frustradas. Estamos planejando uma viagem com motorhome pela Austrália e/ou Nova Zelândia. A África e a Ásia também estão sempre nos planos, assim como destinos nos extremos gélidos do globo. Gostaria muito de viajar pela América do Sul também, algo que infelizmente nunca fiz. Ir para a Polônia e conhecer um pouco mais as origens da minha família paterna. Enfim, melhor pensar que a vida seja uma viagem, assim busco tornar cada dia em uma aventura única.

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