jan 24, 2014
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Aforismos de Franz Kafka

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Pelo próprio ato de viver, ele embaraça o seu caminho. O embaraço, porém, dá-lhe a prova de que ele vive.

Certas pessoas negam a miséria, referindo-se ao sol; ele nega o sol, referindo-se à miséria.

O motivo de o juízo da posteridade sobre o indivíduo ser mais certo do que o juízo dos contemporâneos, encontra-se no próprio morto. O indivíduo desenvolve-se só depois da morte, quando sozinho. A morte é para o indivíduo o que é a tarde de sábado para o limpador de chaminés: lava-o da fuligem.

Todas as virtudes são individuais; todos os vícios são sociais.

Ele tem dois adversários: o primeiro combate-o por trás, da Origem; o outro barra-lhe o caminho para a frente. Ele luta contra os dois. Para dizer a verdade, o primeiro, propulsando-o, ajuda-o contra o outro, e, do mesmo modo, o outro, repelindo-o, ajuda-o contra o primeiro. Mas isto só em teoria. Pois não há só os dois adversários: existe também ele próprio — e quem conhece as próprias intenções? É o seu sonho que num momento inesperado — e deveria ser uma noite, tão escura como nunca houve igual — abandona o campo de batalha, elevado que foi, graças à sua experiência na luta, à condição de juiz dos dois adversários.

O verdadeiro caminho é o caminho sobre uma corda, estendida não no alto, mas no chão. Corda que parece destinada antes a fazer tropeçar que a ser atravessada.

Há dois pecados capitais, dos quais derivam todos os outros: impaciência e relaxamento. Por efeito da impaciência, foi o homem expulso do paraíso; por efeito do relaxamento, lá não voltará. Mas… também pode ser que não volte por efeito da impaciência.

O movimento decisivo da evolução humana é permanente. Por isso, têm razão os movimentos de espírito revolucionários, que declaram sem efeito todo o passado: nada ainda aconteceu.

Um dos mais eficientes meios de sedução do Demônio é a provocação à luta. É como a luta com mulheres, que acaba na cama.

Leopardos irromperam no templo e esgotaram os vasos sagrados; isto se repetiu sempre. Enfim, é possível imaginá-lo, torna-se parte da liturgia.

Tu és a prova. Mas não existe aluno.

As gralhas afirmam possuir o poder de destruir o céu. Isso está fora de dúvida, mas nada prova contra o céu; pois “céu” significa: ausência de gralhas.

É só por nossa noção de tempo que falamos de Juízo Final; na verdade, é um permanente tribunal de emergência.

Na luta entre o Mundo e ti, acompanha ao Mundo; não é lícito defraudar ninguém — nem o Mundo, portanto — da sua vitória.

Uma fé como a guilhotina; assim leve, assim pesada.

Existe conhecimento do diabólico, mas não existe fé nele; pois não existe mais diabólico do que existe.

Até mesmo o mais conservador tem força para o radicalismo de morrer.

O ócio é o princípio de todos os vícios e o coroamento de todas as virtudes.

O Messias só virá quando já não precisarmos dele.

Muitos se queixam de que as palavras dos sábios são sempre só parábolas, inúteis na vida quotidiana; e só esta nos é dada. Todas as parábolas dizem apenas que o incompreensível é incompreensível; e isto já sabemos. Disse um: “Porque resistes? Se obedecesses às parábolas, transformar-te-ias em parábola, e estarias livre da vida quotidiana.” Outro disse: “Eu gostaria de apostar em que isto também é uma parábola.” O primeiro respondeu: “Ganhaste.” O outro disse: “Mas infelizmente, só na parábola.” E o primeiro: “Não, na realidade; na parábola, perdeste.”

Fonte: Extinta “Revista do Brasil”, em 1943.

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