out 29, 2016
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Literatura ingênua e esquecida

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Num ano repleto de efemérides literárias, envolvendo autores que vão de Rabelais e Voltaire a Aldous Huxley e Aníbal Machado, talvez seja um despautério abrir espaço para lembrar de José Mauro de Vasconcelos, morto há exatos dez anos, aos 60 anos. É um despautério ainda maior se levarmos em conta que seus romances, afinal, não ficaram. Nem na história da literatura nem nas estantes das livrarias, entre os chamados best sellers perenes. Procurei há dias um exemplar de “O Meu Pé de Laranja Lima”, em três livrarias do Rio, e voltei para casa de mãos vazias.

Aparentemente não se cumpriu a profecia de que ele continuaria a “encantar seu público simples e ingênuo porque em todos os tempos vamos encontrar essas pessoas”. Tais palavras foram ditas à revista “Visão” por Jorge Medauar, quando da morte do escritor. Mas os leitores simples e ingênuos de 1994 não só estão em outra como deixaram de ser trabalhados pela editora que detém os direitos autorais de José Mauro. Nem os best sellers sobrevivem congelados pela inércia editorial.

Embora tenha escrito outros livros, quase todos, dizem, bem sucedidos nas vendas, como “Arara Vermelha” (que também virou filme) e “Vazante” (filmado no México, com o título de “Mulher de
Fogo”), sendo que um deles, “Barra Blanca”, publicado em 1945, recebeu elogios da crítica, José Mauro será sempre lembrado, exclusivamente, pelas singelas e nostálgicas peripécias de “O Meu Pé
de Laranja Lima” –mais conhecido nas rodas literárias de 25 anos atrás como “O Meu Pé no Saco de Laranja Lima”.

Traduzido em 32 países, foi um dos maiores fenômenos de venda de todos os tempos, no Brasil, e leitura obrigatória em nossas escolas.

Mas sua modestíssima envergadura era reconhecida até mesmo por amigos íntimos do autor, como a antropóloga da USP Filomena Chiaro, que o qualificou de “livro de classe média, muito humano, mas não profundo”.

Com uma vida plena de aventuras –passou fome, dormiu em banco de praça, foi cargueiro, boxeador venal, modelo de nu artístico, pescador, professor de aldeia, garçom de boate, ator de cinema–, José Mauro poderia ter sido um Ernest Hemingway tupinambá. Faltavalhe, porém, o principal, o talento para transformar suas experiências em prosa robusta.

Nem sequer ao sabê-lo adotado também pelo curso de português da Sorbonne nossos críticos lhe dispensaram maiores atenções. Se relançado hoje, o desprezo seria o mesmo, exceto, quem sabe, junto às hostes gays, muito acanhadas em 1968 para se aventurar numa dissecação pública do homossexualismo enrustido do livro.

“A agressividade com que certos críticos se voltaram contra ele, julgando-lhe o desempenho unicamente em termos de estética literaria, em vez de analisálo pelo prisma da sociologia do gosto e do consumo, mostra a miopia de nossa crítica para questões que fujam ao quadro da literatura erudita”. Assim reagiu o poeta José Paulo Paes, em meio a um artigo sobre a falta de uma literatura de entretenimento no Brasil, publicado neste jornal cinco anos atrás. E, por tabela, sobre a falta, entre nós, de críticos com a perspectiva de, digamos, Gillo Dorfles, Umberto Eco e Hans Robert Jauss. O sucesso de “O Meu Pé de Laranja Lima” em outros países (só na Argentina vendeu 800 mil exemplares) nunca foi um atestado de boa qualidade, mas uma prova, a meu ver cabal, de que a classe média tem o mesmo paladar literário acima e abaixo do Equador. Se assim não fosse, Arthur Hailey, Morris West, Harold Robbins, Sidney Sheldon, J.M. Simmel, John Grisham, Noah Gordon e outros do mesmo naipe não frequentariam as listas de bestsellers em todos os quadrantes do planeta.

Bem ou mal, José Mauro, ao menos, era prata (ou ouropel) da casa, arrimo de um mercado ora quase exclusivamente dominado por escritores estrangeiros. As exceções ficam por conta de uma autora (Rachel de Queiroz) revalorizada por uma telessérie (“Memorial de Maria Moura”), de um astuto manipulador de esoterices (Paulo Coelho) e de um estreante, José Roberto Torero, cuja aceitação muito deve à voga da “ficção histórica”, universalizada por Marguerite Yourcenar e entre nós reciclada por Ana Miranda. Exemplos que nada de novo acrescentam ao ramerrão mercadológico. Talvez devêssemos excetuar Torero, não tanto pelas virtudes literárias apontadas em “Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça”, predicados de um bestseller atípico, mas por seu empenho em restaurar um dos pilares da prosa popular nacional: “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, primeiro fenômeno de leitura com presença cativa em qualquer história da literatura brasileira.

Com Almeida, deu-se partida a uma literatura de entretenimento que não soube manter-se de pé e em constante renovação ao longo dos últimos 140 anos. José de Alencar ainda é lembrado, lido, e até foi recentemente traduzido na França, mas o que dizer de antigos campeões de leitura como Paulo Setúbal, Benjamin Costallat, Humberto de Campos? Tiveram o mesmo destino de José Mauro de Vasconcelos: o esquecimento.

Onde erramos? Em vários pontos e em diversas ocasiões. Não conseguimos plasmar e desenvolver uma tradição de gêneros altamente palatáveis e ao mesmo tempo abertos à criatividade como,
por exemplo, o policial e a saga familiar. A despeito dos esforços de Medeiros e Albuquerque, Jerônimo Monteiro e Luís Lopes Coelho, só de uns anos para cá, com Rubem Fonseca, a ficção noir brasileira adquiriu status e repercussão internacional. Tampouco fomos capazes de competir, com o necessário “savoir faire”, com um certo padrão de romance urbano, moderno, esperto, envolvente e socialmente revelador, como americanos e ingleses tão bem sabem fazer.

Ao ler, se é que vai ler, estas linhas, um sujeito chamado Ryoki Inoue na certa dará um muxoxo e, sem tirar o cachimbo da boca, dirá: “Eu não errei”. E não errou, mesmo. Inoue, nissei paulistano de 47 anos de idade cujo forte é o “thriller”, não tem o status de Rubem Fonseca, mas em termos de vendas e produtividade ninguém o supera. Seus livros, todos de bolso e com uma tiragem inicial de 15 mil exemplares, jamais frequentaram as listas de best sellers porque seu escoadouro não são as livrarias, mas as bancas de jornal. Escreveu mais de mil títulos, recorde reconhecido pelo “Livro Guinness dos Recordes”, e os exporta para diversos países, inclusive o Japão.

Inoue é uma máquina de produzir entretenimento. Barato, sem dúvida, mas é com ele que milhares de semiletrados se alimentam de fantasia –e a isso a crítica deveria dedicar a atenção que não deu ao José Mauro.


Publicado por Sergio Augusto, Folha Ilustrada do dia 24 de julho de 1994.

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