jul 5, 2015
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Remando da África ao Brasil

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Sobre a obra de Amyr Klink “Cem dias entre céu e mar”

Quem em sã consciência empreenderia sozinho tal jornada – 3500 milhas náuticas (cerca de 6500 quilômetros) desde o porto de Lüderitz, no sul da África, até a Praia da Espera no litoral baiano, a bordo de um minúsculo barco a remo? Acredito que podemos contar nos dedos os poucos aventureiros que ousaram fazê-lo e aqui deixo minhas impressões sobre a incrível travessia sobre o Atlântico realizada pelo audacioso Amyr Klink no inverno de 1984 e relatada em seu livro CEM DIAS ENTRE CÉU E MAR, publicado pela editora Companhia das Letras em 1985.

Dois anos foram necessários para elaborar o “dossiê amarelo”, um documento que reunia as informações necessárias e estudos técnicos de correntes marítimas e fenômenos atmosféricos que comprovavam ser possível a viagem solitária.  “Lâmpada Mágica” era o apelido da pequena embarcação de cerca de seis metros de comprimento construída para a aventura. Fabricado manualmente em cada detalhe, o pequeno barco foi oficialmente batizado e registrado sob o nome I.A.T. (em homenagem à empresa patrocinadora). Seu casco era composto de lâminas de cedro revestidas com epóxi e ainda uma camada de tinta especial antiincrustante. Um sofisticado sistema de captação de energia solar abastecia as baterias para o rádio e para a iluminação; bombas manuais garantiam a transferência de água potável armazenada nos compartimentos de proa para sua torneirinha, assim como esvaziavam a insistente água salgada que sempre punha em risco a flutuação da embarcação. Uma equipe de nutricionistas elaborou uma rica e balanceada dieta de 150 cardápios para os 109 dias previstos de navegação, que permitiu, com folga, que o Amyr se alimentasse corretamente sem a necessidade de pescar uma sardinha sequer durante toda a viagem. Toda uma equipe de profissionais de várias áreas empenhou-se para que cada detalhe fosse pensado e repensado à exaustão, de forma que nenhuma surpresa desagradável pudesse colocar a vida do navegador em risco.

No decorrer da obra, Amyr conta também sobre sua infância em Parati, no litoral, onde teve suas primeiras aventuras e onde surgiu sua paixão pelo mar. O autor dá algumas aulas de história sobre os navegadores europeus pioneiros, com destaque para os portugueses Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral e também sobre os primeiros visionários a atingir o polo sul. Ele faz, de forma bastante divertida, uma “classificação” das ondas contra as quais lutara. Eram elas as “madames”, “fresquinhas”, “cuspideiras”, “comadres”, “perdidas” e as “madrastas”. Durante quase todo o trajeto, Amyr é acompanhado por um cardume de dourados liderados por um mais claro que ele batizou de Alcebíades. As baleias, golfinhos, focas e aves foram também suas companheiras de travessia, mas a escolta que realmente o amedrontava era a dos tubarões, que em um inteligentíssimo estratagema para a captura dos dourados, raspavam os crustáceos que se prendiam ao barco usando sua pele áspera para lixar o casco, ameaçando assim a integridade física da embarcação.

A cada navio avistado, em sua maioria cargueiros ou petroleiros gigantescos, Amyr tentava estabelecer contato via rádio para aferir sua posição e rota (vale lembrar que ele não dispunha de nenhum computador ou sistema de GPS), e também para aplacar mesmo que minimamente a solidão causada por meses navegando sob o céu ora azul ora negro e sobre abismos de mais de cinco mil metros de profundidade. Esse contato era muitas vezes hilário, pois nenhum dos contatados acreditava na loucura de vir da África ao Brasil remando por mera realização pessoal, e ofereciam-se para resgatar o que acreditavam ser um desafortunado náufrago.

Entre monólogos encolerizados, letras de músicas inventadas, contatos via rádio com amigos e família, tempestades cinematográficas, calmarias preocupantes e muitas, muitas remadas, Amyr Klink narra em uma deliciosa prosa essa epopeica jornada que prende o leitor desde a primeira à última página. É o tipo de livro que causa aquela “ressaca literária”, que é quando fica difícil esquecer do livro recém lido e começar a ler um outro. Uma obra com pouco mais de duzentas páginas de aventura cuja leitura é recomendada a todas as idades.

por Eduardo Queiroz

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